Sócios: ter ou não ter?

Publicado originalmente na revista Au edição no. 218

Ter um sócio pode ser útil para quem deseja ampliar as áreas de atuação do escritório, dividir tarefas ou ter com quem dialogar sobre problemas e rumos da empresa. E, talvez, a razão principal que leva arquitetos a se associar seja garantir a saúde financeira do escritório de arquitetura, principalmente no começo da empreitada, quando tudo é mais difícil. Independentemente do motivo, parcerias deste tipo exigem cuidados para funcionar bem, pois as chances de algo dar errado não são pequenas.

“É muito difícil formalizar um escritório no começo, mesmo com projetos sendo autofinanciados,” explica o arquiteto Martin Corullon que, em 2000, uniu-se a Guilherme Wisnik e Rodrigo Cerviño para criar o escritório Metro Arquitetos. Mais tarde, Guilherme e Rodrigo deixaram a sociedade para se dedicar a outras atividades profissionais, e o escritório passou a contar com Anna Ferrari e Gustavo Cedroni como associados. “É importante para o escritório ter sócios que agreguem conhecimento, compromisso e profissionalismo”, diz Martin.

Para o arquiteto, o mercado de arquitetura está mudando: os escritórios estão deixando o modelo artesanal, onde poucos profissionais atuam em todas as fases, para um modelo empresarial e multidisciplinar, capaz de absorver toda a demanda que projetos de diferentes escalas exigem. “Com equipes maiores, o escritório pode dedicar parte do seu trabalho à área de pesquisa e ao mesmo tempo ser capaz de garantir uma agilidade comercial”, acrescenta.

Como escolher
Foi dessa necessidade que surgiu o Estúdio America, escritório criado por um grupo de arquitetos que atuaram juntos no desenvolvimento de projetos para concursos de arquitetura. “Como alguns de nós somos professores, convidamos ex-alunos, que se tornariam bons profissionais, para participar desse coletivo”, explica Lucas Fehr, titular do escritório. “Só depois de obtermos sucesso em alguns desses concursos é que formalizamos nossa estrutura”, completa.

“É importante haver sinergia entre os sócios”, salienta José Carlos Ignácio, consultor especializado em relacionamento e coordenação de sociedades.

“Quando se confia no sócio e ele está executando suas funções é possível compartilhar e solucionar problemas,” completa. José Carlos explica que, ao participar de uma sociedade, o arquiteto exerce uma função pouco discutida nos cursos de arquitetura: a de gestor.

Divisão de Tarefas
Se os sócios pretendem focar sua atuação apenas na área técnica, precisam contratar profissionais que atuem especificamente nas áreas administrativa, de recursos humanos e marketing. Mas como nem sempre é possível ter um número grande de profissionais permanentes, a alternativa é terceirizar os trabalhos para empresas especializadas. Isso não significa que os sócios não deverão dedicar um tempo da agenda para acompanhar essas atividades.

“O bom gestor precisa estar disposto a adquirir conhecimentos específicos em áreas que não domina. Deve ser ao menos capaz de ler um balanço financeiro e tomar decisões de como e quando ampliar ou reduzir o número de colaboradores”, explica José Carlos. Outro ponto importante para reduzir atritos, segundo o consultor, é discutir os pontos de funcionamento de uma sociedade para depois formalizar as funções de cada um. “99% dos problemas decorre da falta de prevenção”, afirma.

Previna-se
No momento em que as sociedades estão sendo formadas, é preciso estabelecer critérios de como se darão as suas dissoluções. E isso não deve ser visto como um sinal de pessimismo ou desconfiança dos resultados que a parceria irá atingir. A atitude, ao contrário, revela maturidade dos envolvidos, que têm consciência de que nem sempre as sociedades são bem-sucedidas.

Também é preciso determinar o que acontece em uma empresa se um dos sócios precisar se afastar para se dedicar aos estudos ou à família, por exemplo.

Contratos devem prever como se dará a participação de herdeiros no caso de sucessão de controle das empresas, caso um dos sócios se aposente ou faleça; se será permitida a contratação de familiares e quais serão os critérios para retirada de pró-labores.

É sempre bom destacar que o fim da sociedade não implica necessariamente o fim da amizade e do relacionamento. O ex-sócio hoje pode ser um bom parceiro em projetos importantes no futuro.

Como conviver com sócios

  • Antes de iniciar a sociedade, defina o organograma e as responsabilidades de cada sócio
  • Estabeleça o escopo de atuação e objetivos do escritório a médio e longo prazo
  • Ao tomar decisões, mantenha os interesses da empresa acima dos pessoais
  • Chegue a um consenso com o seu parceiro antes de se posicionar a sua equipe: funcionários, clientes e fornecedores não devem presenciar discussões ou a desautorização entre sócios
  • Dedique um tempo da agenda para acompanhar todas as áreas de sua empresa
  • Um gestor deve entender um pouco de tudo, mesmo das áreas que não domina, como a administrativa, por exemplo. Se não entende de um assunto, invista em um curso.